A Entrevista

Pedi ao tipo da portaria que me anunciasse no último andar. Disse-me que não era preciso, bastava subir. A primeira coisa que vi quando entrei foi a escadaria. Passei por ela à procura de um elevador. Depois de atravessar três longos corredores, encontrei o cubo e subi.Bati à porta. Ninguém atendeu. Bati outra vez, mais forte. A porta abriu-se, revelando uma bela mulata de lábios grossos e seios desenvolvidos, parcialmente escondidos no decote do apertado vestido preto.- Pois não?- Vim falar com Albuquerque.- Qual deles?Pensei nas chances de existirem dois Albuquerques num mesmo edifício. Já era um nome divertido demais para compartilhar uma mesma cidade.- Tem mais de um?- Aqui tem dois. No prédio são três, com o porteiro.- Me anuncie ao mais rico.Ela me convidou a entrar e dirigiu-se para uma das salas. Suas nádegas também eram grandes. Aguardei em pé enquanto limpava o suor da testa com o polegar direito. O espaço era pequeno e sujo. À minha direita, um rústico sofá de couro rasgado me convidava a continuar em pé. À esquerda, uma antiga mesa de mogno trazia vários papéis e uma placa enferrujada com a palavra recepção. Uma samambaia que jazia sozinha no canto resumia-se como única alegoria decorativa. Ao fundo, após um pequeno corredor, sete mesas com sete pessoas sentadas em sete cadeiras fitavam sete telas de computador. O ar carregava uma tensão traduzida em silêncio, como num velório, só que sem morto e sem flores.Dez minutos depois, um homem assustador apareceu e, numa voz grossa e rouca, me convidou a entrar em sua sala. Tinha cabelos volumosos e flutuantes, olhos grandes e um nariz jocoso que apontava para o queixo como se quisesse atacá-lo brutalmente. O roufenho começou a falar de sua empresa, do trabalho, e passou a me contar sobre sua vida. Parecia um desabafo. Perdi rapidamente o interesse e passei a não prestar atenção no que ele dizia. Depois de transformar a entrevista num longo e bufante monólogo, perguntou:- E você?Resumi oralmente minha biografia. Perguntou-me quais eram minhas qualificações. Respondi impaciente:- Sou bom no que faço.De alguma forma aquilo soou como uma salvação para ele. Ele arregalou ainda mais aqueles olhos enormes e subitamente estendeu o braço direito em minha direção. Pensando que fosse me agredir, recuei rápido e tombei violentamente de costas no chão. Urinei-me. O homem, com o braço rígido e a mão aberta, nada disse, simplesmente sorriu e esperou que me levantasse. Eu queria sair logo dali. Apertei com força aquela mão áspera e me dirigi à saída, não antes de me despedir de Elen, a corpulenta mulata de grandes lábios.



